Ao longo desses mais de 10 anos atuando como consultora de imagem, muitas mulheres já me procuraram porque estavam se sentindo perdidas e queriam jogar o guarda-roupa todo fora. Algumas chegaram a fazê-lo de fato. A queixa central e recorrente era: eu tinha um estilo e agora ele não faz mais sentido pra mim. Então, o que fazer quando o estilo muda?
O primeiro passo é entender o que, exatamente, passou por modificações. Eu compreendo a insatisfação geral, eu conheço a vontade de se desfazer de todas as roupas, mas tem um ponto aí que a gente precisa discutir. E já adianto que ele é bem polêmico.
Do meu ponto de vista, e o que eu percebo nessa década de profissão conduzindo mulheres para um processo de resgate do próprio estilo, é que o nosso estilo é permanente.
O estilo não muda

Isso significa que somos obrigadas a usar as mesmas roupas a vida toda? Não! Mas, no geral, quando o estilo muda, ou quando a gente sente que ele muda, o que mudou, na verdade, foi a nossa relação com ele.
Para explicar, vou dar um exemplo esquisito, mas que vai fazer sentido no final. Você já viu uma noz – aquela que a gente coloca na mesa no Natal – quando está na natureza? A noz nasce em árvore, na forma de um fruto verde e redondinho, bem parecido com o limão. Só que, se você chegar do mercado com um saco de frutos verdes redondinhos e entregar pra alguém na manhã de 24 de dezembro, a pessoa vai achar que você enlouqueceu. Como alguém confunde noz com aquilo?
O que talvez ela não veja é que dentro daquele fruto verde tem uma casca dura, e dentro da casca dura, bem no centro do fruto, tem a noz que vai no bolo, na bandeja de petiscos, no arroz, na ave natalina, e em todos aqueles lugares onde cismam de acrescentar nozes na ceia.
Mas Érica, o que isso tem a ver com a minha vontade de incinerar o guarda-roupa? Tudo! Porque o seu estilo é como a noz. Pode aparecer no formato mais tradicional em cima de um bolo, ou dentro da casquinha dura e difícil de quebrar, ou até como o fruto verde que irrita a tia-avó. No fundo, no fundo, é tudo noz. Assim como é tudo o mesmo estilo. O que muda – no caso da noz e no caso do estilo – é a apresentação.
Quando as roupas não fazem mais sentido
Na vida a gente atravessa fases diferentes, casa, separa, muda de cidade, muda de país, muda de emprego, de profissão, tem filhos… E o que muda não é só o contexto em que estamos inseridas: cada uma dessas etapas traz prioridades diferentes e também faz a gente se desenvolver. Por isso, o guarda-roupa que fazia sentido na sua vida aos 21 anos, quando você era solteira, baladeira e estagiária, pode não fazer sentido agora, que você tem 33, mudou de país, abriu uma empresa e se tornou mãe.
Isso não significa, porém, que se você garimpasse hoje o guarda-roupa que tinha aos 21, não acharia nada legal. Pode ser que você faça combinações diferentes e use as peças de outra maneira, mas aquelas roupas que realmente tinham a ver com você na época, que estavam totalmente alinhadas ao seu estilo, provavelmente continuariam (ou continuam, caso você não tenha doado todas) fazendo algum sentido. Porque seu estilo continua o mesmo, o que mudou de lá pra cá foi a sua maneira de se colocar para o mundo.
Mesmo que você tenha passado por uma mudança gigantesca, tipo abandonar um emprego de executiva em multinacional para vender miçanga na praia, ainda tem algo em comum entre essas duas versões suas – a mulher de negócios e a hippie do artesanato. E é aí, nessa intersecção, que você vai encontrar seu estilo. Ele tem um padrão que é só seu, como uma impressão digital, e você precisa identificar esse padrão para fazer as adaptações necessárias no guarda-roupa.
Dá pra sacar agora que se você realizar aquele desejo de se desfazer de todas as roupas, vai acabar se arrependendo depois?
Não jogue o guarda-roupa fora!

Além do estilo ser imutável, a gente tem uma necessidade de familiaridade, mesmo na mudança.
Tem um livro chamado Hit Makers: Como Nascem as Tendências que fala muito sobre como as coisas viralizam. Nesse livro, o autor Derek Thompson explica a teoria MAYA (Most Advanced Yet Acceptable, ou mais avançado e ainda aceitável), que diz que as pessoas gravitam na direção de produtos ousados, mas que também sejam instantaneamente compreensíveis. O filme Titanic, por exemplo, é um Romeu e Julieta em um navio afundando. O filme Petz é um Toy Story de animais falantes. E se a gente pensar em modelo de negócios, o Uber também pegou algo que já existia – o táxi – e mudou um pouquinho para agregar inovação.
Se algo muito diferente do habitual nos é apresentado, nossa tendência é não aceitar. Então, pensa: para uma pessoa adotar uma ideia nova há todo um cálculo do que é familiar, somado a uma dose de inovação, que não pode ser muito grande porque algo muito novo causa rejeição. E você vai se desfazer das roupas que está acostumada a usar pra quê? Se depois, além de se arrepender, você vai acabar comprando peças muito parecidas com outras que já tinha? Ou, pior, entrando numa crise maior ainda por não se identificar com nada do que adquiriu?
Quando o estilo muda – ou parece que muda – onde está o problema?
A insatisfação com o guarda-roupa certamente não é culpa das roupas. Aqui, falo com a experiência de quem já acompanhou centenas de clientes lidando com a questão. Em geral, esse incômodo que nos leva a achar que nenhuma roupa faz sentido tem alguma causa na vida da gente. Algo que precisa ser mudado primeiro na vida, pra então a gente se sentir bem novamente.
Depois desse processo, aí sim dá pra olhar o guarda-roupa com a clareza necessária para identificar se tem algo ali que não tá rolando mais, se tem roupa precisando de reforma, e se algumas peças usadas sempre do mesmo jeito podem render novos stylings.
Mas antes de cuidar do que tá incomodando fora do guarda-roupa, eu não recomendo que você mexa no que está dentro dele – do mesmo jeito que eu não recomendo que você tente mudar o seu estilo. Primeiro, porque você não vai conseguir. E, também, porque ele é a sua marca registrada e parte indissociável da sua unicidade nesse mundo.